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Famílias contestam nota da Prefeitura de São Luís sobre mortes no Hospital da Criança
Os pais de crianças que morreram após serem atendidas no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, contestaram informações divulgadas pela prefeitura sobre os casos. Segundo eles, a nota publicada pela gestão municipal apresenta dados incorretos sobre o estado de saúde dos filhos, a forma como eles chegaram à unidade e as circunstâncias das internações.
O Hospital da Criança é uma das principais unidades públicas de atendimento infantil do Maranhão. O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) investiga denúncias relacionadas ao aumento do número de mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do hospital.
A apuração reúne reclamações encaminhadas à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS). Os relatos mencionam problemas na estrutura das UTIs, falta de materiais, possível incapacidade técnica de profissionais e suspeitas de negligência e imperícia médica. Diante das denúncias, o local foi auditado pelo Ministério da Saúde, nessa terça-feira (14).
As denúncias e os dados relacionados aos óbitos foram encaminhados ao Ministério Público Federal (MPF) e à Polícia Federal.
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Saiba mais:
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias
Pais contestam nota da Prefeitura de São Luís sobre mortes dos filhos no Hospital da Criança
Reprodução/TV Mirante
Mãe de gêmeos nega que filhos tenham chegado de ambulância em estado grave
Entre os casos citados na nota da prefeitura estão os dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses. Eles deram entrada no Hospital da Criança em 27 de junho, com sintomas gripais, foram diagnosticados com bronquiolite e morreram dias depois.
No documento, a Prefeitura de São Luís afirma que Bento teria sido transferido de ambulância do município de Rosário, já em estado gravíssimo e com bronquiolite em estágio avançado.
A informação foi negada pela mãe das crianças, Carla Samila dos Santos.
“A nota de repúdio que a prefeitura colocou é totalmente mentirosa. Eles informaram que a gente tinha saído de ambulância de Rosário e que o meu filho já tinha chegado em estado grave. A gente não foi de ambulância porque não deu entrada no Hospital de Rosário. A gente saiu de carro próprio e foi direto para São Luís. Meu filho não estava em estado grave quando chegou. Meu filho agravou lá no hospital”, afirmou.
A Prefeitura de Rosário também se manifestou nas redes sociais e declarou que os bebês não foram transportados por uma ambulância do município. Segundo a gestão municipal, a nota divulgada pela Prefeitura de São Luís contém um equívoco sobre a origem das internações.
Apesar disso, o diretor clínico do Instituto Brasileiro de Medicina e Desenvolvimento (IBMED), Paulo Bayma, também afirmou que as crianças teriam vindo de Rosário em uma ambulância sem médico e sem cilindro de oxigênio.
A versão é contestada pelos pais.
Famílias de pacientes relatam falhas no atendimento, falta de exames e redução de equipes
Reprodução/TV Mirante
Mãe diz que Bernardo chegou apenas com sintomas gripais
A nota da Prefeitura de São Luís também informa que Bernardo deu entrada no hospital com um quadro semelhante ao do irmão. A mãe afirma, porém, que ele apresentava apenas sintomas gripais e não tinha pneumonia quando chegou à unidade.
"E referente ao Bernardo, eles informaram que o meu filho tinha entrado com pneumonia. Meu filho não estava com a pneumonia. Meu filho entrou com sintomas gripais", disse Carla Samila.
Segundo a mãe, Bento apresentava inicialmente o quadro mais grave, com cansaço e dificuldade para respirar. A equipe médica teria informado à família que seria necessário intubar o bebê.
Bernardo, de acordo com os parentes, apresentava sintomas considerados mais leves e permaneceu por dois dias em uma sala de medicação. A família afirma que o estado de saúde dos dois se agravou dentro do hospital.
Após sofrer duas paradas cardiorrespiratórias, Bento foi levado para uma UTI, mas não resistiu. A declaração de óbito aponta insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico.
Cerca de 24 horas depois do sepultamento de Bento, Bernardo também morreu.
Prematuridade é citada pela prefeitura
Na nota, a prefeitura destaca que os irmãos tinham quatro meses e histórico de prematuridade. Para a mãe, a informação foi utilizada de forma a associar as mortes a uma suposta fragilidade anterior das crianças.
“Apesar dos meus filhos terem nascido prematuros, mas meus filhos eram meninos saudáveis. Meus filhos não viviam doentes. Meus filhos não viviam em hospitais. Meus filhos eram saudáveis”, afirmou Carla Samila. , afirmou Carla Samila.
Ela classificou o conteúdo do documento como desrespeitoso e disse que a versão apresentada pela gestão municipal não corresponde ao que foi vivido pela família durante a internação.
Família de Otto contesta referência a cuidados paliativos
Pais contestam nota da Prefeitura de São Luís sobre mortes dos filhos no Hospital da Criança
Reprodução/TV Mirante
Outro caso mencionado pela prefeitura é o de Otto, de nove meses, que morreu após permanecer internado por 17 dias no Hospital da Criança.
Na nota, a gestão municipal afirma que o bebê possuía uma doença degenerativa grave, síndrome de West, microcefalia, sequelas de anóxia perinatal e encefalopatia crônica progressiva. O documento também destaca que ele tinha traqueostomia e gastrostomia e estava em cuidados paliativos.
A família não nega as condições clínicas da criança, mas afirma que elas não explicam nem justificam os problemas ocorridos durante a internação.
“A condição dele não teve culpa do que aconteceu com ele. A negligência do hospital é que teve culpa. O mau trato que ele recebeu... Porque, para mim, o que fizeram com o meu filho foi isso, porque não respeitaram ele nem na hora da morte dele. A gente já entendia que ele já estava morto. Ele estava roxo, a saturação dele estava em 0, em 2, e o médico tinha colocado adrenalina. Ele simplesmente falou para a gente que não ia tirar a adrenalina, porque a gente poderia se arrepender e processar eles”, afirmou a mãe, Leyciane Barbosa.
Segundo ela, a nota minimizou as circunstâncias da morte e desrespeitou a história do filho.
“Na hora que eu li, senti uma dor muito grande, porque, para mim, foi um desrespeito à dor que o meu filho passou. Meu filho lutou tanto para viver. Ele era muito forte, apesar de tudo o que fizeram com ele. É como se estivessem dizendo que o meu filho não era nada, que a morte dele não foi nada”, lamentou.
Pais explicam significado dos cuidados paliativos
André, pai de Otto, também contestou a forma como a prefeitura mencionou os cuidados paliativos.
Segundo ele, o acompanhamento paliativo tinha como objetivo garantir conforto, tratamento adequado e qualidade de vida, e não significava que a morte da criança fosse considerada imediata ou inevitável.
“Uma pessoa que já entra no hospital, no caso dele, já entra em cuidados paliativos, mas não em cuidados paliativos finais. Ela entra em cuidados paliativos, no cuidado da melhor maneira de atendê-lo, da melhor maneira de tratá-lo. Não em cuidados paliativos de dizer que, daqui a duas horas, ele vai morrer: ‘Vamos botar logo morfina, vamos colocar logo adrenalina nele’. Não. O cuidado paliativo em que ele estava, segundo o que falaram para a gente, era o cuidado de cuidar dele, de achar a melhor maneira possível de tratá-lo para ele receber alta”, destacou o pai.
A família relata que Otto já havia sido atendido anteriormente no Hospital da Criança. Em uma dessas internações, ele teria sido transferido da UTI para uma enfermaria mesmo sem condições clínicas, segundo a mãe. Quando foi transferido para outro hospital infantil, ele conseguiu se recuperar e recebeu alta.
Em janeiro de 2026, Otto voltou a ser internado no Hospital da Criança, desta vez com uma infecção intestinal. Os pais afirmam que exames e procedimentos básicos demoraram a ser realizados. Ele morreu após 17 dias de internação. A declaração de óbito aponta choque séptico como causa da morte.
Família relata falta de materiais e medicamentos
Os pais de Otto afirmam ainda que precisaram comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis no hospital, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.
De acordo com Leyciane, a falta de sondas colocava em risco crianças com traqueostomia que dependem de aspiração frequente para retirar secreções.
“A falta de material não é só medicamento. É sonda, é não ter sonda para fazer uma aspiração, é não ter como salvar uma criança. Porque, se é uma criança que usa tráqueo, e são vários tipos, não é só uma criança que tem paralisia cerebral que usa tráqueo, existem vários motivos para se usar uma tráqueo, pessoas conseguem viver a vida inteira com traqueostomia, mas precisam dos cuidados, que é a aspiração. Se você está ali, ainda mais com uma criança que não sabe tossir, que não sabe colocar para fora sozinha, você precisa aspirar. Se você não aspirar, ela sufoca, ela morre. Então, a gente tinha que comprar a sonda para levar para o hospital, para o nosso filho não morrer asfixiado pela própria secreção”, afirmou a mãe de Otto.
A família também relata que precisou comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis na unidade, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.
Famílias dizem que nota tenta descredibilizar denúncias
Na publicação, a Prefeitura de São Luís também contesta os números apresentados nas denúncias e divulgados em reportagens sobre o Hospital da Criança.
As famílias afirmam, porém, que os dados citados fazem parte de documentos e relatos investigados pelo Ministério Público do Maranhão e encaminhados ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.
Para Leyciane, a nota da gestão municipal tenta descredibilizar os parentes e apagar a trajetória das crianças.
“Meu filho não fez mal a ninguém. Pelo contrário, só fizeram mal a ele. Para mim, é como se estivessem ferindo a honra do meu filho, tudo o que ele lutou e tudo o que ele representou. Apesar de todo o mal que fizeram, ele continuou lutando. A nota tenta apagar a história dele e diminuir a importância da vida dele. Não existem palavras que consigam explicar esse sentimento de indignação”, afirmou.
As famílias cobram a apuração das circunstâncias das mortes, das condições de atendimento no hospital e da possível falta de profissionais, medicamentos e materiais na unidade.
Hospital da Criança passa por auditoria do Ministério da Saúde
Ministério Público do Maranhão investiga o aumento de mortes nas UTIs infantis do Hospital da Criança
Reprodução/TV Mirante
Técnicos do Ministério da Saúde estiveram, na manhã dessa terça-feira (14), no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, para apurar denúncias relacionadas ao funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas da unidade.
A auditoria é conduzida pelo Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS) e foi aberta depois que relatos sobre mortes de crianças e supostas falhas no atendimento foram encaminhados à Ouvidoria do Ministério da Saúde.
A inspeção é coordenada pelo diretor do DenaSUS, Rafael Bruxellas, e conta com a participação de outros quatro técnicos da pasta. Ao todo, cinco integrantes trabalham na auditoria. A expectativa é que o relatório com as conclusões da equipe seja finalizado nos próximos dias.
As denúncias envolvendo o hospital também são investigadas pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA), pelo Ministério Público Federal (MPF) e por outros órgãos de controle. Algumas famílias registraram ainda ocorrências na polícia.
Até o momento, não há conclusão oficial que estabeleça as causas das mortes ou uma relação direta entre os óbitos e as mudanças realizadas na gestão das UTIs.
Famílias relatam demora no atendimento e agravamento de crianças
Denúncias apontam crescimento de mortes nas UTIs no Hospital da Criança em São Luís
Entre os casos investigados está o de Kerliane, de 7 anos, que morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança.
Segundo a mãe, a bombeira civil Jainara Sousa dos Santos, a menina foi levada à unidade no dia 23 de abril com dor na perna. Dois dias antes, ela havia sofrido uma queda no quintal de casa e machucado a região do glúteo.
Jainara afirma que a filha realizou exames de sangue e uma tomografia. Após a identificação de um coágulo, a criança teria recebido alta sem passar por drenagem.
“Minha filha não estava tão mal, mas ela fez uns exames de sangue e deu um pouco de anemia. Se deu alguma infecçãozinha leve, eles não falaram logo e deram alta pra minha filha”, relatou Jainara.
Dois dias depois, a mãe retornou ao hospital porque a dor havia aumentado e a menina começou a apresentar vômitos. Novos exames teriam apontado uma infecção, além de alterações no pulmão, no fígado e nos rins.
Kerliane foi entubada em uma área conhecida como “grande sala”, onde permaneceu por dois dias antes de ser transferida para uma UTI. A menina morreu no dia 29 de abril.
"A perna da minha filha foi só inchando e ela (a médica) disse que era normal, que era redução de líquido. Quando eles pensaram de fazer a drenagem foi no dia 29, a minha filha faleceu”, lamentou a mãe.
No atestado de óbito constam como causas da morte parada respiratória, sepse, pneumonia hematogênica e artrite séptica, uma infecção bacteriana grave que atinge as articulações.
“Eu me sinto destruída todos os dias porque está faltando (uma filha) dentro de casa. É dolorido. É uma coisa que mata a gente todo dia, saber que você entregou seu filho bem e trouxe seu filho de volta no carro de uma funerária”, disse Jainara.
Kerliane, de 7 anos, morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança em São Luís.
Reprodução/TV Mirante
O caso é investigado pelo Ministério Público do Maranhão.
"Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina" , explicou o promotor de Justiça Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde.
Denúncias apontam crescimento de mortes nas UTIs
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
Reprodução/TV Mirante
Documentos encaminhados aos órgãos de fiscalização apontam que o Hospital da Criança teria registrado 113 mortes em 2025. Desse total, 101 teriam ocorrido dentro das três UTIs pediátricas da unidade.
O número representaria um aumento de aproximadamente 159% em relação a 2024, quando, segundo os denunciantes, teriam sido contabilizados 39 óbitos nas unidades de terapia intensiva.
A Prefeitura de São Luís contesta os números apresentados nas denúncias.
Segundo informações encaminhadas pela administração municipal à produção da reportagem, o hospital teria registrado 112 mortes em 2024 e 117 em 2025.
Os dados citados pela prefeitura, no entanto, divergem dos registros disponíveis no sistema do Ministério da Saúde. Em relação a 2025, apenas 31 mortes estariam registradas no DataSUS, uma diferença de 86 óbitos em comparação com o total informado pelo município.
O material disponibilizado para a reportagem não apresenta o número do DataSUS referente a 2024, o que impede a comparação entre os dados daquele ano.
Profissionais ouvidos sob condição de anonimato afirmam que uma eventual subnotificação prejudica o planejamento de ações, a avaliação da qualidade do atendimento e a adoção de medidas para reduzir mortes consideradas evitáveis.
“Você perde os dados, você deixa de planejar coisas de saúde pública, medidas de saúde pública para evitar esse tipo de óbito, para ter um planejamento de ação, para saber porque eles estão acontecendo, para que outros não aconteçam”, destaca uma médica da unidade de saúde.
De acordo com documentos citados na apuração, mais da metade dos 31 óbitos registrados no sistema do SUS em 2025 poderia ter sido evitada. A classificação e os critérios utilizados deverão ser detalhados pelos órgãos responsáveis durante as investigações.
Indicadores apontam 65 mortes no primeiro semestre
A reportagem também teve acesso a indicadores internos do Hospital da Criança referentes ao período entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026.
De acordo com os documentos, foram registradas 65 mortes na unidade durante o primeiro semestre. Cinquenta e três delas ocorreram dentro das UTIs.
Os dados apontam um crescimento de 38,89% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
As informações fazem parte do conjunto de documentos analisados pelo Ministério Público e pelos demais órgãos que apuram o funcionamento do hospital.
Profissionais denunciam redução da equipe médica
Médicos, enfermeiros e técnicos que trabalham ou trabalharam no Hospital da Criança afirmam que houve redução significativa da equipe depois de uma mudança na gestão das UTIs.
Os profissionais aceitaram falar sem serem identificados por medo de retaliações.
Segundo uma médica pediatra, até 12 de outubro de 2025 as três UTIs contavam com 53 médicos. As escalas teriam oito profissionais pela manhã, seis à tarde e seis durante a noite.
A partir do dia 13 de outubro, segundo os relatos, o número de médicos teria sido reduzido. Em determinados plantões, haveria apenas três profissionais para atender as três UTIs — um médico em cada unidade.
Os denunciantes também afirmam que parte dos plantonistas não teria especialização ou experiência em pediatria.
“Com esse quantitativo de profissionais, mesmo um médico treinado, muito experiente e capacitado não daria conta desse cenário. E estamos falando de pessoas que não têm experiência em pediatria. Na grande maioria das vezes, não é um pediatra que está no plantão, e isso tem um impacto direto na assistência".
Outra médica afirmou que a redução da equipe pode diminuir as chances de sobrevivência das crianças internadas em estado grave.
Os funcionários também relataram possíveis falhas em prescrições, falta de materiais, ausência de medicamentos e dificuldades na realização de procedimentos de emergência.
Em um dos relatos, uma profissional afirmou que duas médicas não teriam conseguido realizar uma desfibrilação durante o atendimento a uma criança que sofreu uma parada cardíaca. O paciente morreu.
A denúncia ainda será analisada pelos órgãos responsáveis e não há, até o momento, conclusão oficial sobre o episódio.
Mudança ocorreu após contratação de empresa
Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís realizou uma licitação para contratar uma empresa responsável pelo gerenciamento das UTIs do Hospital da Criança.
O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, venceu a disputa e assumiu a gestão das unidades.
Segundo as denúncias, o novo contrato teria reduzido os recursos destinados ao custeio das UTIs e diminuído o número de médicos nas escalas.
Profissionais que trabalhavam anteriormente na unidade afirmam que alguns integrantes da equipe foram convidados a permanecer, mas recusaram a proposta porque consideraram que o número previsto de médicos seria insuficiente para garantir um atendimento seguro.
Uma das médicas ouvidas afirmou que seria “humanamente impossível” um único profissional, mesmo qualificado, atender sozinho uma UTI pediátrica de alta complexidade.
Defensoria pediu anulação do contrato
A Defensoria Pública do Maranhão (DPE-MA) também passou a acompanhar o caso e identificou possíveis falhas no edital utilizado para contratar o IBMED.
Entre os problemas apontados estariam a redução da equipe médica e a possibilidade de contratação de profissionais sem a especialização exigida para atuar nas UTIs pediátricas.
Diante das irregularidades, a Defensoria pediu ao Ministério Público a anulação do contrato firmado entre a Prefeitura de São Luís e o instituto.
O Ministério Público abriu um inquérito para investigar tanto as mortes quanto as possíveis falhas no processo de licitação.
Caso sejam comprovados atos de negligência, imprudência ou imperícia relacionados aos óbitos, o órgão poderá instaurar uma investigação criminal para identificar e responsabilizar os envolvidos.
Auditoria foi aberta após denúncias à Ouvidoria do SUS
Ministério da Saúde apura denúncias sobre UTIs do Hospital da Criança Descrição:
As denúncias também foram encaminhadas diretamente ao Ministério da Saúde por meio da Ouvidoria do SUS.
Em um dos relatos, uma mãe afirma que a filha recebeu inicialmente o diagnóstico de bronquiolite e chegou a ser medicada para a doença. Posteriormente, outra médica teria descoberto que a criança apresentava acúmulo de líquido ao redor do coração.
O caso está entre os episódios analisados pela equipe do DenaSUS durante a auditoria desta terça-feira.
Além das inspeções presenciais, os auditores devem examinar prontuários, escalas de profissionais, contratos, indicadores de mortalidade, registros de internação e notificações lançadas nos sistemas do SUS.
O relatório final deverá apontar se houve irregularidades administrativas, falhas na assistência, problemas na composição das equipes ou inconsistências nos registros de óbitos.
O que dizem as autoridades
Prefeitura nega omissão de dados
A Prefeitura de São Luís negou que haja desabastecimento generalizado de insumos e medicamentos no Hospital da Criança. A gestão municipal admitiu, no entanto, que podem ocorrer reduções pontuais nos estoques em períodos de alta demanda.
Nessas situações, segundo o município, são realizados o remanejamento interno de materiais ou a substituição de medicamentos por produtos equivalentes.
Sobre a segurança e a qualidade do atendimento, a prefeitura afirmou que monitora as UTIs pediátricas para evitar a interrupção dos serviços ou o fechamento de leitos.
A administração municipal também destacou o papel regional do Hospital da Criança. Segundo a prefeitura, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e 71% dos pacientes internados no primeiro semestre deste ano vieram de municípios do interior do Maranhão.
A Prefeitura de São Luís também negou que omita informações do Sistema Único de Saúde e afirmou que todas as mortes registradas no hospital são notificadas oficialmente ao Sistema de Informações sobre Mortalidade.
De acordo com a gestão municipal, eventuais diferenças entre os dados locais e as informações disponíveis nos sistemas públicos federais são provocadas por atrasos no processamento e na atualização da base nacional.
Ao contrário do que aponta a denúncia investigada pelo Ministério Público, a prefeitura informou que não houve aumento expressivo no número de mortes no Hospital da Criança.
Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025. O número de óbitos passou de 112 para 117 no período.
A gestão municipal também afirmou que o quadro de profissionais das UTIs atende integralmente às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.
A prefeitura reforçou ainda que não existem registros oficiais de desabastecimento generalizado e que o fornecimento de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.
Contrato com o IBMED
Sobre a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, a Prefeitura de São Luís afirmou que a licitação e o contrato cumprem rigorosamente a legislação.
O município declarou ainda que o Tribunal de Contas do Estado negou os pedidos de suspensão do contrato e arquivou as representações apresentadas contra a administração municipal.
Conselho Regional de Medicina
O Conselho Regional de Medicina informou que acompanha a situação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança.
Segundo o órgão, o objetivo é garantir a segurança da assistência prestada aos pacientes e as condições de trabalho dos médicos.
O conselho afirmou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificadas irregularidades.
Ministério Público Federal
O Ministério Público Federal informou que recebeu a denúncia sobre a situação do Hospital da Criança.
O caso será analisado por um procurador da República, que vai avaliar a adoção das medidas necessárias para apurar os fatos.
Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde informou que já apura as denúncias encaminhadas à Ouvidoria do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís.
Uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, o DenaSUS, foi enviada à unidade para analisar a situação das UTIs pediátricas e verificar as informações apresentadas nas denúncias.