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    Paciente do SUS com câncer de pulmão vive menos por falta de acesso ao tratamento mais indicado

    10 hours ago

    Freepik Imagine duas pessoas que descobrem, no mesmo dia, que têm o mesmo tipo de câncer de pulmão. Os exames mostram que o tumor das duas tem uma característica rara, mas tratável: uma alteração no gene ALK, um tipo de defeito genético encontrado em cerca de 5 a cada 100 casos desse câncer no Brasil, mais comum em pessoas jovens e que nunca fumaram. Para esse tipo específico de tumor, existe um remédio em comprimido, tomado em casa, que ataca diretamente o que faz aquela célula doente crescer —diferentemente da quimioterapia, que circula pelo corpo inteiro e afeta também células saudáveis. Pacientes que tomam esse remédio costumam viver mais e passar mais tempo sem o câncer voltar a crescer. Só que uma dessas duas pessoas é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A outra, por um plano de saúde particular. E é aí que a história de cada uma começa a mudar. Essa diferença, hoje, não é uma suposição: ela foi medida. Dois estudos conduzidos por médicos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) acompanharam, com rigor científico, o que de fato acontece com pacientes brasileiros nessa situação: um ouviu mais de 150 oncologistas do país inteiro sobre o que eles conseguem oferecer aos pacientes; o outro foi direto aos prontuários de mais de 100 pessoas tratadas em 12 hospitais brasileiros. Os dois foram publicados neste ano na revista científica JCO Global Oncology, ligada à Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO). Agora no g1 Primeiro obstáculo: acesso ao exame Antes de qualquer remédio, é preciso um exame que confirme a alteração genética no tumor. E aqui já está o primeiro degrau da desigualdade: enquanto praticamente todo médico da rede privada (94 em cada 100) disse ter acesso de rotina a esse exame para seus pacientes, no SUS esse número cai para menos da metade —44 em cada 100. Os próprios médicos explicaram por que isso acontece. O motivo mais citado foi a falta de reembolso: muitos hospitais públicos simplesmente não têm como pagar pelo exame com regularidade. Outros médicos relataram que o pedaço de tumor retirado em biópsia, às vezes, não é grande o suficiente para fazer a análise —e em muitos casos, diante da urgência de começar algum tratamento, a quimioterapia acaba começando antes mesmo de o resultado do exame sair. O efeito disso aparece de forma indireta em outro número: dos pacientes com essa alteração genética encontrados pelos pesquisadores em 12 hospitais brasileiros, apenas 1 em cada 5 estava no SUS —mesmo o SUS atendendo a cerca de três quartos da população do país. Isso sugere que boa parte dos pacientes da rede pública com esse tipo de câncer nunca chega a descobrir que tem a alteração genética —e, portanto, nunca chega a ser considerada para o tratamento mais indicado. Segundo obstáculo: o remédio pode não estar lá Passado o exame, vem a etapa do tratamento. E aí a diferença só aumenta. Entre os médicos que atendem pelo SUS, praticamente nenhum relatou ter acesso rotineiro aos remédios mais modernos dessa classe. O mais antigo deles, o crizotinibe, já incorporado ao sistema público, foi citado por apenas 1 em cada 10 médicos da rede pública como opção disponível logo de início. Na rede privada, o cenário se inverte: o remédio mais moderno e considerado hoje o tratamento de referência, o alectinibe, foi citado por 8 em cada 10 médicos como disponível para seus pacientes desde o começo do tratamento. Isso não significa que o SUS ignore esses remédios. Pelo contrário: o crizotinibe foi formalmente incorporado ao sistema público em 2022, e um remédio mais novo, o brigatinibe, em 2025 —ou seja, o governo já reconheceu, oficialmente, que esses tratamentos funcionam e devem ser oferecidos. O problema está no que vem depois dessa decisão: segundo os autores do estudo, o valor que o SUS paga aos hospitais por esse tipo de tratamento não cobre o custo real de comprar o remédio, e o rombo financeiro acaba caindo sobre os próprios hospitais públicos —que, sem dinheiro suficiente, recorrem à quimioterapia, mais barata, mesmo quando ela não é a melhor opção para aquele paciente. O resultado final: anos de diferença É aqui que a história das duas pessoas do início desta reportagem se separa de vez. O segundo estudo do GBOT, que olhou diretamente os prontuários de mais de 100 pacientes brasileiros tratados entre 2015 e 2020, mostrou o tamanho real dessa diferença. Já no tempo até descobrir a doença, o SUS demora mais: em média, mais que o dobro do tempo da rede privada entre o início dos sintomas e o diagnóstico. Mas é no resultado final que a diferença mais impressiona. Três anos depois do diagnóstico, 87 em cada 100 pacientes da rede privada ainda estavam vivos, contra 61 em cada 100 no SUS. E o tempo que cada paciente passou sem o câncer voltar a crescer foi, em média, três vezes maior na rede privada: 40 meses, contra 11 meses no SUS. "Nos nossos dados, essa desigualdade de acesso virou diferença real de resultado clínico", resume a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT e autora dos dois estudos. Segundo ela, parte do que se perde ao começar o tratamento com quimioterapia pode ser recuperada depois, quando o remédio-alvo finalmente chega —mas nem sempre por completo, porque o atraso pode fazer o paciente piorar a ponto de não aguentar mais nenhum tratamento. Por que isso não é simplesmente o SUS falhando Vale entender por que essa diferença existe, porque a resposta não é simples nem é só sobre o SUS. O Brasil já demora, de forma geral, para aprovar remédios assim: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) levou cinco anos a mais que os Estados Unidos para liberar os primeiros remédios desse tipo no país. E o mesmo padrão de dificuldade de acesso se repete em outras alterações genéticas tratáveis por remédios parecidos —não é um problema isolado desse câncer específico. Segundo Mascarenhas, o entrave central, hoje, é econômico: não basta um remédio funcionar bem clinicamente, o sistema público também precisa decidir se aquele benefício compensa o custo, especialmente quando o tratamento é caro e atende a um grupo pequeno de pacientes. "Esse é justamente o racional da medicina de precisão: tratar menos pessoas, mas tratar melhor as pessoas certas", diz a médica. Ela cita exemplos de outros países que negociam o preço desses remédios direto com os fabricantes, em vez de cada hospital pagar um valor diferente —ou que só pagam o valor cheio se o remédio realmente funcionar no paciente. Modelos que, segundo ela, poderiam ser adaptados à realidade do SUS. Questionada se o maior obstáculo da medicina de precisão no Brasil hoje é científico, regulatório ou econômico, ela não hesita: "é principalmente econômico, de colocar em prática." Já se sabe bem quais alterações genéticas respondem a quais remédios, e as regras para aprovar essas tecnologias têm avançado. O que falta, segundo ela, é encurtar a distância entre aprovar um remédio no papel e ele realmente chegar ao paciente —exatamente a distância que os dois estudos do GBOT tentaram medir. O que diz o Ministério da Saúde Procurado, o Ministério da Saúde afirma que "vai disponibilizar mais 23 medicamentos oncológicos de alto custo —entre eles brigatinibe, gefitinibe, erlotinibe e durvalumabe, para o tratamento do câncer de pulmão— de forma gradual a partir de outubro, conforme pactuado com estados e municípios". "Será a maior entrega já realizada pelo SUS para ampliar o acesso da população aos tratamentos contra o câncer, um aumento de 35% na oferta dos fármacos na rede pública que vai solucionar pendências que chegavam a até 12 anos em alguns casos. Mais de 112 mil pacientes serão beneficiados. Os novos medicamentos serão 100% custeados pelo Governo do Brasil. Para assegurar que pacientes tenham acesso aos medicamentos oncológicos de maneira ainda mais segura e organizada, a pasta lançou no ano passado o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco). Essa política pública garante Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) unificados, cria um modelo mais eficiente para compra dos medicamentos e reduz a burocracia no acesso aos remédios", conclui a nota.
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