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    Mãos fracas e visão turva: estamos ficando com 'corpo de celular'?

    6 hours ago

    Mãos fracas e visão turva: estamos ficando com 'corpo de celular'? CRÉDITO, BBC/SERENITY STRULL/GETTY IMAGES Nossas preocupações com os possíveis efeitos do tempo que passamos em frente às telas normalmente se concentram na nossa mente. Mas, recentemente, observei um pequeno calo no meu dedo mínimo, exatamente no ponto onde apoio meu telefone celular. Isso me levou a imaginar o que o aparelho estaria causando para o resto do meu corpo. Conversei com alguns especialistas para descobrir. E a resposta não é promissora, como você já deve estar adivinhando. As recentes descobertas da ciência indicam que os nossos celulares e seus parceiros digitais podem alterar o formato do pescoço, prejudicar a visão, afetar a capacidade motora e reduzir a força muscular dos seus usuários. As pessoas chegam a recear que a tecnologia que dirige nossas vidas possa causar aumento das rugas e que alguns desses problemas físicos talvez gerem declínios cognitivos e outros problemas mais sérios. Não sei o que você pensa a respeito, mas eu não estou disposto a ficar simplesmente sentado assistindo (até porque o tempo que passamos sentados também é parte do problema). Felizmente, existem algumas medidas que podemos tomar para evitar que a tecnologia prejudique o nosso corpo. Deformação da espinha Se você estiver lendo esta reportagem em um telefone celular, provavelmente está inclinando sua cabeça para olhar para baixo. Esta "postura da cabeça para frente" pode colocar até 27 kg de pressão sobre o pescoço. Ao longo do tempo, ela pode prejudicar os discos da espinha, degenerar as juntas e os músculos e até reduzir a nossa capacidade pulmonar. Esta condição já tem um nome: "pescoço tecnológico". E pode alterar permanentemente a aparência do nosso corpo. Exercícios específicos com orientação médica podem ajudar a corrigir o problema. Mas existem mudanças mais simples que podemos tomar de imediato, como segurar o celular em um ponto mais alto. Posicione a tela do aparelho no nível dos olhos, idealmente à distância de um braço em relação ao rosto. O mesmo conselho se aplica aos monitores de computador. Especialistas afirmam que intervalos de tempo de tela podem ajudar. Tente parar por 20 minutos a cada meia hora. Pele irritada e rugas no pescoço? Surgiu recentemente uma nova preocupação: o pescoço tecnológico causa rugas? "Teoricamente, faz sentido", segundo a dermatologista Justine Hextall, do Colégio Real de Medicina do Reino Unido. O estresse repetitivo causa rugas. Por isso, inclinar-se para frente e dobrar o pescoço todo o tempo pode ser um problema, segundo ela. Mas não existem bons estudos comprovando esta relação, explica Hextall. Ela não recomenda usar os produtos para a pele anunciados na internet como sendo especiais para o "pescoço tecnológico". Existem outros problemas de pele preocupantes, especialmente entre os usuários de smartwatches (relógios inteligentes) que nunca tiram o dispositivo do pulso. "Um ambiente escuro e úmido [como a área embaixo do relógio] é ótimo para criar fungos", segundo ela. "Por isso, você pode sofrer irritações ou até eczema." O relógio também pode danificar a barreira da pele. Por isso, Hextall afirma que ele pode gerar sensibilidade a alguns dos ingredientes dos produtos tecnológicos, como níquel, borracha, látex e um grupo de substâncias conhecidas como acrilatos. Aqui, a solução é simples: tire o smartwatch do pulso com mais frequência e lave a pele. A dermatologista também recomenda usar um creme de barreira, se você for usar o relógio o dia inteiro. Prejuízos à visão A incidência de miopia vem disparando há décadas. E, se considerarmos o que terá mudado na nossa vida durante período, é fácil apontar a tecnologia como sendo a culpada. Talvez seja verdade, mas não da forma como pensamos, segundo o professor de optometria Donald Mutti, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. "Fizemos um estudo longitudinal por mais de 20 anos do desenvolvimento dos olhos das crianças, examinando fatores de risco para o surgimento e progressão da miopia", explica Mutti. Uma questão fundamental foi se há ou não conexão entre a miopia e o "trabalho de perto" — tarefas que mantêm você concentrado em algo que está perto do seu rosto, como o celular. "A resposta foi 'não exatamente'", segundo o professor. Mas o estudo descobriu outro motivo: o tempo passado fora de casa parece ter efeito protetor. "A ideia é que a luz brilhante dos ambientes externos estimula a liberação de dopamina da retina", explica Mutti. E, aparentemente, este processo pode afetar o desenvolvimento dos olhos. A tecnologia faz parte de uma mudança global que nos leva a passar mais tempo em ambientes internos. Por isso, Mutti acredita que os aparelhos eletrônicos podem causar efeitos negativos indiretos à nossa visão. Aqui, a solução é simples, segundo ele. Precisamos apenas passar mais tempo em ambientes externos. Além de ser bom para os olhos, pode nos ajudar a dormir melhor. Basta usar protetor solar e óculos escuros, para evitar os efeitos prejudiciais da luz do Sol. Enfraquecimento das mãos Os cientistas consideram cada vez mais a força de aperto das mãos como um indicador da saúde geral das pessoas. Um estudo concluiu que este fator prevê a morte precoce melhor do que a pressão arterial. E a força das mãos está em declínio em muitos países, especialmente entre os mais jovens. "O declínio geracional não é uma simples questão de mãos mais fracas. Ele pode ser um alerta precoce sobre a saúde futura dos grupos mais jovens", explica o professor de sociologia médica Johannes Beller, da Universidade Médica de Lausitz, na Alemanha. "Existe uma preocupação razoável de que a mudança para o trabalho sedentário junto ao computador colabore com o declínio das condições físicas", segundo ele. E é plausível que também haja efeitos sobre a força de aperto das mãos. Você deve ser capaz de apertar uma bola de tênis ao máximo possível e manter o aperto por 15 a 30 segundos. Se não conseguir, existem exercícios que podem melhorar sua condição girando os pulsos, como ensina outra reportagem da BBC. Mas a questão não é apenas aumentar a força de aperto das mãos, mas sim melhorar as condições físicas como um todo. Ou seja, neste caso, dê um pulo na academia. Coordenação entre as mãos e os olhos Aparentemente, a tecnologia também afeta as habilidades motoras, que conectam a mente e o corpo para gerar movimentos precisos. Ela pode melhorar suas habilidades de clicar e deslizar, como diz o professor de psicologia do desenvolvimento e educação Sebastian Suggate, da Universidade de Regensburg, na Alemanha. "Mas, se você examinar o desenvolvimento da coordenação motora como um todo, particularmente as habilidades motoras finas, as evidências convergem para um efeito negativo", segundo o professor. Neste ponto, nós sabemos muito mais sobre os efeitos nas crianças do que nos adultos. A própria pesquisa de Suggate mostra uma associação entre o aumento do tempo de tela e a pouca coordenação motora. Isso é especialmente alarmante porque existe correlação entre a coordenação motora e o desenvolvimento acadêmico e cognitivo de crianças e adolescentes. Seu conselho é não entrar em pânico, nem proibir as telas. Em vez disso, introduza conscientemente atividades manuais no seu dia a dia. Tarefas manuais continuadas podem ajudar, como cozinhar ou se dedicar ao artesanato. Suggate, por exemplo, faz trabalhos com madeira, mas você pode aprender a tocar um instrumento ou simplesmente escrever à mão. "Não é o fim do mundo", segundo ele. "Os efeitos são sutis." "Mas, mesmo se os efeitos individuais forem pequenos ou moderados, coletivamente, ao longo de gerações, estamos falando em uma possível degradação intelectual da sociedade e incapacidade de pensar na realidade, já que as mãos são um ponto central de contato que temos com o mundo." Thomas Germain é jornalista sênior de tecnologia da BBC. Ele escreve (em inglês) a coluna Keeping Tabs e é um dos apresentadores do podcast The Interface. Seu trabalho revela os sistemas ocultos que conduzem sua vida digital e como você pode viver melhor dentro deles. Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Technology. O teste da pegada: quais suas chances de viver até os 100 anos? Os efeitos no corpo de passar muitas horas sentado e como combatê-los Por que a luz do celular não está prejudicando seu sono A 'epidemia' de miopia que atinge 1 em 3 crianças no mundo (mas ainda não é tão comum no Brasil) Os perigos de transformar a cama em local de trabalho, mesmo sem sentir dores Como a vida moderna está mudando o esqueleto humano
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