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Maior quilombo do Brasil celebra tombamento histórico pelo Iphan
Território, ancestralidade e força marcam a comunidade Kalunga, em Goiás. Com mais de 260 mil hectares de extensão territorial e 39 comunidades, o maior quilombo do Brasil celebra a conquista de um tombamento histórico, firmado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
Na Chapada dos Veadeiros, no Entorno do Distrito Federal e entre os municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, vivem cerca de 8 mil quilombolas que carregam a história de seus ancestrais: pessoas que foram escravizadas e encontraram nas montanhas um refúgio.
A palavra “Kalunga” vem do bantu, um dialeto africano, e está ligada ao sagrado. “Para nós ser quilombola é um grande tesouro que temos, mas, para isso, nós temos que preservar a nossa identidade cultural, que está no nosso sangue. Quilombo sem cultura não é nada. Significa também resistência, luta, conquista, fé e coragem “, definiu o líder quilombola Cirilo dos Santos Rosa.
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Aos 71 anos e pai de 13 filhos, Cirilo se apresenta como uma liderança comunitária, nascido e criado no Engenho II, uma das comunidades situadas em Cavalcante. Ele explicou que os Kalungas existem há mais de 300 anos, quando africanos escravizados fugiam das fazendas de garimpo de ouro e se juntavam aos povos indígenas, formando uma relação de convivência e parentesco.
Cirilo relatou que em 1972 foi iniciado o estudo antropológico que definiu as 39 comunidades distribuídas entre os três municípios, no coração do Cerrado. Reconhecida como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural pelo governo de Goiás desde 1991, o povo Kalunga mantêm vivas as suas tradições por meio da oralidade, do artesanato, das danças, da gastronomia e das festas religiosas.
No ano 2000, a Fundação Cultural Palmares reconheceu o território e, em 2004, a regularização das terras foi iniciada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Mais de uma década depois, o quilombo foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (Ticca) do Brasil.
Atualmente, a agricultura familiar e o turismo de base comunitária possibilitam que o povo Kalunga possa sobreviver e ter autonomia. Em meio a serras, morros e paisagens exuberantes, estão os guardiões do Cerrado.
Cirilo dos Santos Rosa, liderança quilombola
Yanca Cristina/g1 Goiás
Tombar para proteger
Quilombo Kalunga, em Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
De acordo com o Iphan, o tombamento institucional de um quilombo representa o reconhecimento oficial e a proteção legal de sítios e documentos que guardam as reminiscências históricas e a memória da resistência quilombola contra a escravidão, instituído pela Portaria nº 135/2023.
O reconhecimento da comunidade Kalunga ainda está em desenvolvimento. O convênio assinado entre o órgão nacional e o Sebrae deve viabilizar os recursos necessários para a realização do “Inventário dos Bens Culturais e das Potencialidades Econômicas das Comunidades Quilombolas Kalunga”.
Ao g1, a gestora de turismo do Sebrae, Priscila Vilarinho, destacou que a previsão para a finalização do processo de tombamento está atrelada às complexidades de logística, dificuldades de acesso e chuvas. O prazo estimado para o início de 2028. Até lá, o cronograma prevê visitas técnicas e reuniões com as lideranças comunitárias para o mapeamento do quilombo, além da realização de oficinas de campo para coletar o saber tradicional.
Após a finalização do processo, a expectativa é que a comunidade ganhe proteção legal, bem como apoio no desenvolvimento territorial sustentável, com geração de renda e criação de oportunidades por intermédio da valorização da cultura Kalunga.
Segundo Priscila, o Sebrae atua junto com o quilombo desde 2002. “A gente tem atuado bastante junto a eles com formatação de rotas turísticas ligadas à cultura, ancestralidade, também às ervas, às plantas medicinais, ao bem-estar, que a comunidade tem e proporciona através da natureza”, disse.
Importância do reconhecimento para o quilombo
Com uma trajetória profundamente enraizada no território Kalunga, Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa, de 37 anos, personifica a transição entre o conhecimento tradicional e a gestão pública. Filha de Getúlia e Cirilo, ela é professora de formação e empreendedora no setor de turismo, mas sua atuação política começou cedo, representando a comunidade desde a juventude. Atualmente, ela faz parte da Associação Comunitária do Engenho II (AKCE) e, há um ano, assumiu o desafio de comandar a Secretaria de Turismo e Cultura de Cavalcante.
Em entrevista ao g1, a secretária afirmou que a comunidade vê o reconhecimento por parte do Iphan como uma forma de fortalecer e assegurar seus modos de vida, culturas e tradições, além de proteger tanto os bens materiais quanto os imateriais.
Segundo ela, o tombamento pode contribuir para a manutenção dessas práticas ao facilitar o acesso a editais e a apoios institucionais, governamentais ou não, especialmente em situações em que as pessoas já não têm condições de manter determinadas tradições por conta própria.
“É um anseio da comunidade, do território”, contou. No entanto, ela ressaltou que todo o processo precisa ser construído de forma participativa, com a associação e os moradores. “Nada para nós sem nós”, reforçou, destacando que caberá à própria comunidade decidir o que deve ser registrado. Ela também apontou a necessidade de ampliar o entendimento sobre o tema entre os moradores, já que muitos não tiveram acesso à escolaridade.
Para Cirilo, pai de Natália, esse reconhecimento é fundamental para garantir segurança, preservar a história e fortalecer a proteção contra invasões e atividades ilegais, como o garimpo. Ele acredita que a atuação do Iphan é essencial nesse processo, funcionando como parceiro na busca pela regularização fundiária completa e na garantia de que o território seja preservado para as futuras gerações.
Comunidade Kalunga, em Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
Vilmar Kalunga, eleito prefeito de Cavalcante há dois mandatos, relembrou a sua trajetória política. Segundo ele, trata-se de uma conquista simbólica após quase dois séculos sem representação direta no poder municipal. Ele definiu esse momento como de rompimento, uma oportunidade de quebrar correntes, destacando que a maioria da população do município é quilombola e que, ainda assim, essa representatividade demorou a acontecer.
Ele afirmou que hoje, como gestor, busca garantir oportunidades que não teve no passado. “Estou realizando muitas coisas que eu não tive oportunidade, que o meu povo não teve”, disse, ao citar avanços como a construção de unidades de saúde e melhorias no acesso ao território.
Vilmar também recordou experiências de conflito fundiário vividas por sua família, como ameaças e expulsões de terras tradicionalmente ocupadas pelos Kalunga. O prefeito mencionou episódios em que casas eram incendiadas e plantações impedidas por pessoas que se diziam proprietárias das terras.
A importância do tombamento do território é vista como uma forma de proteção e uma garantia de sobrevivência das comunidades. “É mais uma ferramenta de conquista, de permanência”, ressaltou. De acordo com Vilmar, o tombamento não beneficia apenas a comunidade local, mas também contribui para a valorização de um patrimônio que é coletivo.
Veja fotos da Comunidade Kalunga, na Chapada dos Veadeiros
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Preservação da memória Kalunga
Casa Memória da Mulher Kalunga, em Cavalcante
Yanca Cristina/g1 Goiás
A memória é uma das principais forças do quilombo. De geração para geração, a história de seus antepassados é contada e permanece viva. Em Cavalcante, Marta Faria da Silva, conhecida como Marta Kalunga, é responsável por contar a trajetória do seu povo, em específico, sobre as mulheres que estiveram e continuam na linha de frente.
Criadora da Casa Memória da Mulher Kalunga, ela contou que o espaço está diretamente ligado à sua história de vida e às experiências que teve ainda na infância, no quilombo. Nascida e criada na comunidade quilombola Vão de Almas, ela afirmou que desde cedo observava as dificuldades enfrentadas pelas mulheres da comunidade, especialmente a falta de autonomia. Muitas produziam alimentos e outros itens, mas dependiam dos maridos para comercializar, e frequentemente não viam retorno desse trabalho.
“Eu cresci vendo isso, não só ali, mas com várias famílias”, lembrou, recordando que essa realidade despertou nela o desejo de fazer algo voltado às mulheres.
Marta Kalunga em sua casa, em Cavalcante
Yanca Cristina/g1 Goiás
Marta deixou o território ainda jovem, aos 12 anos, e passou por diferentes experiências de trabalho, inclusive em Brasília, onde atuou como babá e cuidadora. Após um episódio de violência, quando teve uma arma apontada para a cabeça durante um assalto, decidiu retornar ao quilombo em 2018. Esse momento, segundo ela, foi decisivo para repensar sua vida: “Aquilo me fez refletir, pensar de onde eu vim”. De volta, começou com uma pequena estrutura de hospedagem e uma lojinha, reunindo produtos feitos por mulheres da comunidade, como sementes, óleos, farinhas e artesanato.
Com o tempo, o espaço foi se consolidando, mas enfrentou dificuldades durante a pandemia, quando as atividades pararam e a comunidade passou por momentos de escassez. Nesse período, Marta resgatou saberes tradicionais, aprendendo a trabalhar com o tear de pente liço, inspirado nas práticas das mulheres de sua família. Ela passou a produzir peças e, mais tarde, a incentivar outras mulheres a retomarem técnicas como a fiação do algodão e o tingimento natural com plantas do cerrado.
A ideia da Casa Memória ganhou força após situações de pressão externa sobre o território, como tentativas de compra do espaço. Marta relatou que decidiu afirmar a identidade do lugar como forma de resistência. O local também homenageia sua tia-avó, dona Lió, parteira conhecida como Mãe Preta, figura central em sua formação e inspiração para o trabalho coletivo com mulheres.
Pintura da Dona Lió
Yanca Cristina/g1 Goiás
Com o passar dos anos, o espaço se expandiu para além da hospedagem e da loja. Marta passou a investir no audiovisual como ferramenta de valorização cultural, participando de documentários e criando o Cine Mãe Preta, com exibições para a comunidade. A iniciativa cresceu e hoje inclui produções sobre a cultura Kalunga, além de sessões itinerantes em outras comunidades.
Outro marco importante foi a criação da biblioteca quilombola, pensada a partir da necessidade de acesso à leitura e à valorização de narrativas negras. "O acervo reúne obras com história do povo preto, escritas pelo povo preto”, afirmou Marta.
Casa da Memória da Mulher Kalunga, em Cavalcante
Yanca Cristina/g1 Goiás
Há mais de 20 km do local, na comunidade Ema, em Teresina de Goiás, José Pereira das Virgens, de 72 anos, é responsável por contar a trajetória de sua mãe, Dona Lió, e as transformações vividas pela comunidade quilombola ao longo dos anos, especialmente no que diz respeito à chegada da energia elétrica e à preservação da memória local. Ele explicou que ela pertenceu a uma geração mais antiga, acostumada a formas tradicionais de iluminação, como o candeeiro de cera e, posteriormente, a lamparina a óleo diesel. No entanto, ela faleceu pouco tempo depois da implantação da energia, em 2006.
José Pereira das Virgens, de 72 anos
Yanca Cristina/g1 Goiás
Seu José também relatou que, após a morte da mãe, houve uma mobilização para preservar sua memória por meio da construção de um museu. A iniciativa contou com apoio de pessoas próximas da família. No entanto, o projeto não foi concluído. “A verba não deu para terminar, ficou no meio da estrada”, contou. O espaço está parado há cerca de 15 anos.
Ao comentar sobre a importância do tombamento, ele concordou que o reconhecimento pode ajudar a valorizar a história da comunidade e atrair mais visibilidade. Para ele, há uma preocupação real com o desaparecimento das memórias mais antigas. “Vai acabando”, disse, ao se referir à perda gradual das histórias com o falecimento das gerações mais velhas. Nesse sentido, o registro e a valorização dessas narrativas são vistos como fundamentais.
Museu em homenagem à Dona Lió, em Teresina de Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
Ele lembrou o papel de Dona Lió como uma das mulheres que enfrentaram conflitos fundiários. Com a chegada de fazendeiros, a comunidade foi sendo pressionada e limitada em seu próprio espaço, o que afetou diretamente práticas tradicionais como o plantio. Essa realidade, segundo ele, comprometeu a autonomia e a sobrevivência das famílias ao longo do tempo.
Casa da Dona Lió, em Teresina de Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
A poucos metros de onde José mora, existem elementos históricos no território, como inscrições em pedras, conhecidos como hieróglifos, que também fazem parte desse patrimônio cultural que a comunidade busca preservar (veja abaixo).
Comunidade Ema, em Teresina de Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
‘Território para nós é sagrado’
Agricultura familiar, em Cavalcante
Yanca Cristina/g1 Goiás
O quilombo está profundamente ligado ao cultivo da terra, a uma agricultura familiar, onde se come o que planta e se planta para sobreviver. Nas feiras locais, os alimentos orgânicos e livres de agrotóxicos são expostos e servem como uma fonte de renda. As frutas do Cerrado, como buriti, mangabá e murici, também completam a mesa no quilombo e são transformadas em sucos, doces, sabão, e até mesmo remédios caseiros.
Essa mesma terra que sustenta milhares de famílias, ainda é alvo de discussão. Natália destacou que uma das principais demandas do território é a regularização fundiária. A falta dessa regularização limita o acesso a diversos direitos e mantém a comunidade em situação de insegurança. Ela explicou que o principal objetivo é garantir a liberdade sobre as terras onde seus antepassados viveram e onde a comunidade permanece até hoje, mas reconheceu que se trata de um processo lento, que ainda se arrasta.
“Será a reparação histórica mais bem feita quando isso acontecer. Saber que você está no que é seu. A gente sabe que é da gente, mas a gente quer ter a certeza. Muito fazendeiro chega dizendo que é dono. Não temos sossego. O que a gente mais quer é liberdade mesmo”, afirmou.
Produtos quilombolas à venda
Yanca Cristina/g1 Goiás
A comunidade do Engenho II, onde Natália vive, é referência em práticas de manejo ambiental. O território foi pioneiro na observação e no uso tradicional do fogo, conhecimento herdado dos antepassados, que hoje embasa ações desenvolvidas em parceria com órgãos como o Ibama. Como resultado, a comunidade conta atualmente com duas equipes de brigadistas. “A gente acaba servindo de escola aos demais”, relatou. Dessa forma, os saberes tradicionais seguem vivos e vêm sendo utilizados como modelo em outras regiões.
Líder quilombola e ex-presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK), Jorge Moreira de Oliveira participa da luta pelo território e pelos direitos da população Kalunga há muitos anos. Ele lembrou que, em 2005, acompanhou uma pesquisa de mestrado que buscava identificar se ainda havia famílias descendentes de pessoas escravizadas na comunidade Engenho II.
Segundo ele, durante cerca de 12 dias, percorreram o território de Cavalcante, visitando vestígios históricos como muros de pedra construídos com trabalho escravo. Jorge citou a chamada “Estrada dos Bandeirantes”, que liga a comunidade às áreas de plantio e que, segundo relatos históricos, teria sido utilizada por senhores em carros de boi para acessar produções como açúcar mascavo e café, além de estar associada à exploração do pau-brasil e aos ciclos de garimpo.
Para Jorge, a principal luta do quilombo é pelo reconhecimento legal da terra: “Se a gente perder esse território, a gente não tem para onde ir. Esse lugar é sagrado para nós.”
Ester Fernandes de Castro, de 60 anos
Yanca Cristina/g1 Goiás
Ester Fernandes de Castro, de 60 anos, é moradora da comunidade Ema, e tem uma trajetória marcada pela atuação na educação, no trabalho rural e na luta coletiva pela terra. Professora e lavradora, ela afirmou que há mais de três décadas participa da mobilização pela regularização fundiária. Atualmente, ela ocupa o cargo de vice-presidente da ACK.
Segundo Ester, a criação da associação teve como principal objetivo garantir o direito à terra, pressionando órgãos como o Incra e governos estadual e federal. Ao longo do tempo, a atuação se ampliou para outras áreas, como educação, saúde, habitação e infraestrutura. “Tudo o que for de melhoria, a gente está na busca”, disse.
Ao relembrar o início da organização comunitária, Ester contou que a comunicação entre os moradores era feita de forma simples e direta, de boca a boca. Também era necessário o uso de bilhetes e o deslocamento até a cidade para tratar de assuntos com autoridades. Com o tempo, a organização coletiva se fortaleceu, especialmente a partir da criação da primeira associação, em 1992, e, posteriormente, da AQK, em 1999.
Tendo atuado como vereador por quatro mandatos em Teresina de Goiás, ela lutou para a sua comunidade, composta por cerca de 120 famílias e aproximadamente 600 pessoas, conquistasse melhorias de vida. O que a motIva é a esperança de viver em paz no território e garantir condições para que as próximas gerações permaneçam ali.
Turismo de base comunitária
Cachoeiras na comunidade Engenho II, território Kalunga
Yanca Cristina/g1 Goiás
Atualmente, o Engenho II é a comunidade quilombola com a base turística mais bem estruturada. No território, estão três cachoeiras de água cristalina: Santa Barbara, Capivara e Canduru. Os turistas têm a oportunidade de entrar nas matas do Cerrado, se conectar com a natureza e se impressionar com uma paisagem repleta de relevos. Os guias são os próprios Kalungas, que montaram ao longo dos anos uma infraestrutura para receber pessoas de fora no seu território sagrado.
No comando da Secretaria de Turismo de Cavalcante, o principal objetivo de Natália é a concretização da Lei de Atrativos, uma demanda que tramita há 12 anos. Para enfrentar o desafio de levar informação às comunidades mais distantes, ela destaca o programa Prefeitura Presente e a implementação da Sala do Empreendedor, em parceria com o Sebrae, visando apoiar aqueles que são "empreendedores natos por necessidade", mas carecem de orientação técnica.
Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa, de 37 anos
Yanca Cristina/g1 Goiás
O povo quilombola é rico em cultura. A secretária detalhou que as festividades no município, como as Romarias do Vão do Moleque e do Vão de Almas, transcendem a ideia de simples entretenimento. Elas são, essencialmente, momentos de pagamento de promessa e agradecimento por colheitas, curas e milagres que a medicina convencional muitas vezes não explica.
Entre as tradições mais marcantes estão as folias, com giros de foliões que percorrem casas com bandeiras e instrumentos, e a dança da Sussa. A dança tem origem africana e para os Kalungas é um símbolo máximo de agradecimento de uma dádiva e de celebração comunitária.
Ao g1, o secretário de turismo de Teresina de Goiás — local onde o turismo de base comunitária ainda não é tão presente — , Laydson Fernandes da Silva, explicou que há uma diferença entre territórios onde a juventude tem assumido protagonismo e outros onde a condução ainda permanece concentrada em gerações mais antigas. Para ele, essa transição é fundamental para impulsionar novas ideias e fortalecer o desenvolvimento local.
Laydson propõe o fortalecimento do turismo cultural como alternativa estratégica para a região. Ele reconheceu que o diferencial do território Kalunga está na experiência cultural. A proposta inclui a criação de uma “Rota Kalunga”, baseada no turismo de experiência, em que visitantes possam vivenciar práticas tradicionais do cotidiano. A ideia é que o turista não apenas observe, mas participe das atividades, como produzir farinha, conhecer a origem dos alimentos, tirar leite ou vivenciar o modo de vida local.
O roteiro incluiria desde a recepção com café típico até visitas guiadas, passeios, alimentação tradicional e apresentações culturais, como a sussa, sempre acompanhadas de explicações sobre a ancestralidade e o significado dessas práticas.
O secretário também chamou atenção para a perda gradual de diversas tradições, como o uso do carro de boi, a produção artesanal de engenhos e até técnicas antigas de fabricação. Ele destaca que, sem a transmissão desses saberes para as novas gerações, muitos deles podem desaparecer.
“Se nós não for passando para as próximas gerações, essa história vai acabar”, alertou.
Laydson defendeu que iniciativas como o tombamento são essenciais para valorizar e proteger esse patrimônio. O reconhecimento pode atrair investimentos, incentivar a preservação e fortalecer a identidade cultural da comunidade.
Elizabet Fernandes da Cunha, no Espaço Akan
Yanca Cristina/g1 Goiás
"É um turismo que preserve, que mantenha a cultura e que não deprede". É com esse propósito que Elizabet Fernandes da Cunha abre as portas da casa de sua família para receber visitantes. O Espaço Akan, em Teresina de Goiás, é um convite às suas própias origens. Na comunidade Ema, ela produz artes rústicas com o barro, que contam a história do seu povo.
Dona Teresa, no Espaço Akan
Yanca Cristina/g1 Goiás
Ela aprendeu com a avó Dona Teresa, com quem divide o espaço e os materiais, a transformar barro em arte, panelas, chicarras, cachimbos e muitas outras possibilidades. A experiência com cerâmica foi nomeada como "Café com Barro" e proporciona aos turistas um dia tranquilo, com os pés no chão, aos mãos no barro e comida caseira.
É com esse barro que Elizabet pintou as paredes de casa e encontrou uma forma de se conectar com as suas raízes e sustentar a família, compartilhando saberes a partir da valorização da memória ancestral.
Espaço Akan, Teresina de Goiás
Yanca Cristina/g1 Goiás
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