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    IA nas escolas: uso de tecnologia na sala de aula expõe limites do ensino baseado na memorização

    12 hours ago

    Aluno estuda com computador. Gustavo Pellizzon/SVM A disseminação acelerada de modelos de linguagem como o ChatGPT nos ambientes escolares instalou um diagnóstico que se repete com variações mínimas entre professores, gestores e formuladores de políticas públicas: os alunos estão terceirizando seus trabalhos, redigindo ensaios com um comando de voz e resolvendo exercícios com a colagem de enunciados em interfaces de inteligência artificial. À primeira vista, isso parece configurar uma epidemia de preguiça intelectual e desonestidade acadêmica em massa. No entanto, uma investigação mais detida revela que o alarme em torno da tecnologia oculta um mal-estar muito anterior e muito mais estrutural, que diz respeito ao fim (telos) do próprio trabalho escolar. A educação básica institucional, ao organizar-se como transmissão de um repertório fixo de dados, fórmulas, datas, nomes e classificações, converteu o ato de aprender em uma sequência previsível de operações de memorização e reprodução cujo significado raramente é interrogado pelos próprios sujeitos do processo. Esse modelo, que o educador Paulo Freire já criticava na década de 1960, chamando-o de ‘educação bancária’, é evidentemente muito anterior à inteligência artificial. Mas opera, na prática, também como um algoritmo. Que estabelece um circuito fechado de depósito, arquivamento e devolução de informações, onde muitas vezes o aprendizado real não se faz presente. VEJA TAMBÉM: Agora no g1 Aprendizado ‘decoreba’: o antecessor da IA Assim, o uso da inteligência artificial pelos alunos para realizar tarefas escolares não deveria causar surpresa. Estudantes fogem do estudo como o diabo foge da cruz. Antes da IA, já existiam a cópia de textos da internet, trabalhos feitos por colegas (ou até por profissionais), a “cola” nas provas e outras estratégias para conseguir aprovação sem ter real familiaridade com o conteúdo ensinado. Mesmo entre os alunos que não recorrem a esses meios, muitos não compreendem de fato o que respondem nas avaliações, pois se limitam a decorar as informações que serão cobradas. Nesse tipo de aprendizado “decoreba”, é comum o estudante esquecer o que “aprendeu” logo depois da prova. Sem enxergar relevância, alunos terceirizam as tarefas para os ‘bots’ Grande parte do desinteresse que o aluno manifesta na escola não nasce de uma apatia espontânea, mas de um currículo que raramente se preocupa em cultivar o sentido daquilo que se aprende. Sem enxergar relevância pessoal ou intelectual nas tarefas propostas, o estudante tende a terceirizar o trabalho. Essa falta de vontade decorre de um modelo pedagógico em que ensinar consiste essencialmente em transmitir um inventário de conteúdos, avaliando a aprendizagem pela capacidade de repeti-los com exatidão. A aula torna-se, assim, uma rotina de exposição de definições, datas e procedimentos, ao passo que o estudo se reduz à internalização temporária desses elementos para uma prova. É nesse vácuo que a inteligência artificial encontra espaço. Ora, se o que a escola demanda é a produção de textos padronizados, a resolução de equações por meio de passos prescritos ou a descrição de fenômenos segundo uma narrativa única, então um modelo de linguagem ou um sistema de álgebra computacional executa tais tarefas com eficiência frequentemente superior à do aluno. Ou seja: o problema não reside na ferramenta, mas na natureza da demanda. 'Humanizadores' de textos prometem driblar detectores de IA; professores dizem que tecnologia não faz milagres Paulo Freire e a educação bancária Paulo Freire conceituou a educação bancária como um ato de depósito: o educador deposita comunicados nos educandos, que os arquivam e os repetem, sem que haja verdadeiro encontro com o saber ou com a realidade. O estudante é reduzido a um receptor passivo de conteúdos, fazendo com que a atividade intelectual se torne indistinguível de um gesto mecânico. Sob essa perspectiva, a educação bancária pode ser compreendida como uma arquitetura algorítmica: uma série finita de passos definidos para a transmissão e verificação de dados, cujo sentido não se discute, apenas se executa. O recurso à inteligência artificial apenas materializa, em escala muito maior, a lógica que já comandava o cotidiano escolar. O estudante que entrega um trabalho feito pelo chatbot não faz mais do que automatizar uma tarefa que, desde o princípio, era apresentada a ele como um procedimento impessoal e repetitivo. Nessa medida, a terceirização é o sintoma mais visível da falência do modelo bancário. A inquietação gerada pela inteligência artificial no campo educacional tem o mérito de tornar inadiável um debate que, de outro modo, permaneceria latente: a crise de sentido de uma educação reduzida a algoritmo. Os diagnósticos de Paulo Freire iluminam as raízes dessa crise, mostrando que a prática bancária produz um tipo de ensino cujas tarefas já estão, estruturalmente, disponíveis para a automação. A terceirização do trabalho discente não é, assim, o problema original, mas o efeito visível de um modelo que separou o conhecimento da experiência e o convertendo-o em mercadoria informacional. IA apresenta uma oportunidade para refundar o sentido da educação Nesse contexto, uma solução inspirada em Paulo Freire reconhece na crise uma oportunidade para refundar o sentido da educação. Uma educação emancipadora não nega a técnica, mas a subordina a finalidades humanas, recusando‑se a fazer do domínio técnico um fim em si mesmo. Em vez de serem combatidas, as ferramentas de IA podem ser problematizadas, apropriadas criticamente e postas a serviço de projetos que exijam investigação, diálogo e produção de significado. O essencial é deslocar o eixo do trabalho pedagógico da memorização e da repetição para a experiência reflexiva. Isso implica substituir as tarefas que se esgotam na reprodução de informações por desafios que mobilizem a capacidade de formular perguntas, de interpretar contextos e de construir argumentos. Em lugar de provas que aferem a exatidão de dados, avaliações que acompanhem percursos de pesquisa, criação e autoanálise. Aqui é importante enfatizar o fato de que tal movimento requer reorganização dos currículos para cultivar o interesse necessário para o aprendizado. Assim, por mais que a IA por muitas vezes atrapalhe o aprendizado, ela não está fazendo nada mais do que tornar mais evidentes as precariedades já existentes da nossa educação. O que está em jogo não é apenas o uso ou a proibição da inteligência artificial, mas a decisão ética e política sobre a finalidade social da educação, do ensino fundamental à pós-graduação. *Cristian Arão é professor de Filosofia na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). **Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.
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