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    Como João Câmara se reconstruiu após o maior terremoto da história do RN

    1 day ago

    Praça da Igreja Matriz, em João Câmara Bruno Vital/g1 Maria de Lourdes Vital ainda lembra o valor do patrimônio que a família deixou para trás quando saiu de João Câmara "com medo dos abalos". Duas casas, um ponto comercial e um terreno foram vendidos por apenas 12 cruzeiros. "O povo trocava casa até por rapadura. Só queria era sair de lá", recorda. Em novembro de 1986, Lourdes deixou a cidade com o marido e os 11 filhos, dias antes do grande tremor de 5.1. Como milhares de moradores, ela acreditou que não havia mais futuro ali. ➡️ "João Câmara, Terra dos Abalos" é uma série especial do g1 que relembra os 40 anos do maior terremoto já registrado no Rio Grande do Norte e um dos maiores do Brasil. A terceira reportagem mostra como uma cidade que foi abandonada por quase metade da população conseguiu se reerguer. 📳 Clique aqui para seguir o canal do g1 RN no WhatsApp Três anos depois, em 1989, Maria de Lourdes retornou para João Câmara. Encontrou uma cidade diferente daquela que havia deixado: marcada pela destruição, mas também pelo esforço de reconstrução de uma população que decidiu permanecer. Hoje aposentada, a ex-feirante Maria de Lourdes é símbolo da reconstrução de João Câmara. Aos 85 anos, ela segue vivendo em João Câmara e não pretende deixar a cidade. "Nossa vida está toda aqui", conta. Maria de Lourdes Vital (ao centro) com parte da família em João Câmara Arquivo pessoal O município que chegou a perder aproximadamente 10 mil moradores durante a crise sísmica voltou a crescer, recuperou a economia e hoje é um dos principais polos de energia eólica do Rio Grande do Norte. O fenômeno natural registrado na madrugada de 30 de novembro de 1986 não foi apenas um evento geológico. Para quem vivia em João Câmara, ele representou uma ruptura na rotina, nos planos e na relação das pessoas com o próprio lugar onde moravam. O problema não terminou quando o maior abalo passou e a sequência de tremores continuou por anos, o que ajudou a alimentar o medo da população. "Você ter mesmo pequenos tremores, mas toda hora está tremendo, isso abala enormemente as pessoas", explica Joaquim Mendes Ferreira, professor aposentado e um dos pioneiros da sismologia no Rio Grande do Norte. Casa com rachadura em 1986 Arquivo LabSis/UFRN A consequência foi uma fuga em massa e entre os que foram embora estava Maria de Lourdes. A família vendeu os bens, mudou para Assú e passou anos tentando reconstruir a vida. "Passamos um tempo apertado. Eram muitos filhos para dar de comer, aluguel para pagar. Foi muito difícil. A gente aguentou quatro anos lá no sofrimento. Voltamos para morar em João Câmara em casa alugada", conta. A volta não apagou as dificuldades. Apesar do apego afetivo à cidade, a sensação era de começar uma vida nova em um lugar diferente. O marido de Lourdes morreu em 1996, e ela precisou continuar criando os filhos. "Um filho de Deus me vendeu um ranchinho de casa, eu comecei a trabalhar nas feiras livres. Fomos construindo essa nova casa, pagando de pouquinho em pouquinho, mas foi um tempo de sofrimento muito grande", relata. A reconstrução Enquanto moradores tentavam reconstruir a própria vida, João Câmara também precisava se reerguer fisicamente. Casas foram recuperadas, estruturas públicas foram reorganizadas e ações emergenciais tentaram devolver uma rotina mínima à população já a partir de 1987. O antigo prefeito Ribamar Leite lembra da situação de emergência, com famílias sem trabalhar e dependendo de ajuda para sobreviver. "Grande parte da população trabalhava de forma autônoma ou fazia bicos. Essa parte ficou sem trabalhar. Nós precisávamos alimentar essa população". Barracas foram montadas em espaços públicos Arquivo Osório Avelino Soares A prefeitura organizou a distribuição de alimentos pelas ruas com os veículos disponíveis. Também houve soluções improvisadas para atender moradores. Um circo foi transformado em hospital de campanha depois que estruturas de saúde passaram a ser consideradas inseguras. "Era o Circo da Cultura, que perambulava pelo Estado. A gente conseguiu trazer ele para amenizar o problema, dar um alegria à população. Depois de um tempo, falei com o governador Radir Pereira e ele autorizou que o circo ficasse na cidade para ser transformado em hospital", conta Ribamar. A reconstrução das moradias também foi fundamental para que as pessoas voltassem. Segundo o ex-prefeito, cerca de 1,2 mil casas entre João Câmara e Poço Branco foram construídas ou reconstruídas após o terremoto. Algumas casas reformadas pelas equipes do Exército Brasileiro ainda apresentam o brasão do Batalhão de Engenharia de Construção. Casas ainda apresentam brasão do Exército Sérgio Henrique Santos/Inter TV Cabugi e Bruno Vital/g1 Foi nesse processo que a cidade começou a recuperar a confiança de que era possível continuar vivendo ali. "Quando eu vi que foi decidido isso e que o governo mandou o recurso, eu vi o pessoal voltando para João Câmara, comecei a observar que João Câmara não ia embora como muita gente dizia que se acabaria", afirma Ribamar. O papel de quem segurou a cidade Em meio ao caos social, um nome aparece repetida e espontaneamente nos relatos de quem viveu aquele período: o monsenhor Luiz Lucena Dias. Ele faleceu em 2017, aos 90 anos. Monsenhor Lucena costumava lembrar da relação próxima que desenvolveu com João Câmara. "Em 1986 fiquei o ano praticamente todo aqui, o povo dizia que se eu saísse o restante sairia também", disse em uma de suas últimas entrevistas ao jornal Tribuna do Norte. Monsenhor Luiz Lucena Dias, o "Apóstolo do Mato Grande" Foto: Januário Pereira/Wikimedia Commons Para Ribamar, ele foi essencial para impedir que a população perdesse completamente a esperança. "Monsenhor Lucena foi uma mola mestra que nos ajudou muito a aguentar o tombo desse problema", comenta. Pároco da cidade havia quase três décadas, monsenhor Lucena já era uma das figuras mais respeitadas da região do Mato Grande na época dos abalos. Para muitos moradores, foi ele quem ofereceu esperança a uma cidade tão devastada. Durante semanas, percorreu barracas, visitou famílias, celebrou missas e ajudou a convencer moradores de que era possível superar aquela situação. O pesquisador Aderson Farias do Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, destaca que a crise tinha uma dimensão que ultrapassava a ciência e, justamente por isso, o líder religioso teve um papel fundamental. "Ele serviu de amálgama e de comunicador para transmitir confiança no trabalho que estava sendo feito pela ciência. Era uma pessoa iluminada nesse sentido", afirma. Conhecido como o "Apóstolo do Mato Grande", Monsenhor Lucena permaneceu por 48 anos à frente da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens. Além do trabalho religioso, ajudou a criar escolas, fundou a maternidade da cidade e liderou projetos sociais que marcaram gerações de moradores. Estátua em homenagem ao Monsenhor Lucena na Praça da Igreja Matriz, em João Câmara Bruno Vital/g1 Do medo dos abalos à força dos ventos Quarenta anos depois, João Câmara mudou bastante. O município voltou a crescer e registra uma população de 34,8 mil habitantes, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025). Além disso, se consolidou como uma das referências do setor eólico no Rio Grande do Norte. Com 29 parques eólicos e 327 aerogeradores, a cidade está na vanguarda da geração limpa no Estado e responde por quase 10% da produção potiguar. Parque Eólico Eurus II, em João Câmara CGN Brazil Energy/Reprodução A mesma característica que durante décadas trouxe preocupação -- a localização em uma região de fenômenos naturais -- também ajudou a transformar a economia local ao atrair investimento estrangeiro. Hoje, João Câmara integra uma das áreas com maior concentração de parques eólicos do estado. Em 2022, um projeto de lei chegou a tramitar no Senado para batizar João Câmara como a "Capital Nacional dos Ventos". Para o ex-prefeito Ribamar, acompanhar essa mudança é uma resposta aos que acreditavam que João Câmara desapareceria. "Você olha para hoje e vê a coisa em ascensão. É um cenário completamente diferente do que tínhamos no passado, quando todos achavam que João Câmara ia sumir do mapa". João Câmara está preparada para um novo grande abalo? Uma dúvida ainda permanece entre quem vive em João Câmara: a cidade está preparada caso um novo tremor de grande magnitude volte a ocorrer? Hoje, os sismólogos afirmam que a Falha de Samambaia continua ativa e registra pequenos abalos periodicamente. Ao mesmo tempo, reforçam que a ciência ainda não é capaz de prever quando ou se um novo terremoto semelhante ao de 1986 acontecerá. Antiga estação de trem de João Câmara Bruno Vital/g1 Para o ex-prefeito José Ribamar Leite, que comandou o município durante a maior crise de sua história, a falta de planejamento preocupa. "A cidade não está preparada para um novo abalo. A população não tem barracas prontas, a rede elétrica precisa estar estruturada. João Câmara não é uma cidade comum. É preciso estar sempre prevenido para o que pode vir", alerta. O g1 questionou a Prefeitura de João Câmara sobre a existência de um plano específico de contingência para terremotos, protocolos de atuação, orientações à população e eventuais mudanças nas normas de construção adotadas desde 1986. Até a última atualização desta reportagem, a prefeitura não havia respondido aos questionamentos.
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