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    Bando Anunciador: tradição centenária transforma as ruas de Feira de Santana em cortejo marcado por cultura e memória

    10 hours ago

    Edição antiga do Bando Anunciador Edvan Barbosa Quem acompanha o Bando Anunciador pelas ruas do Centro de Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, vê um cortejo formado por fantasias, marchinhas, charangas, fanfarras e milhares de pessoas de diferentes idades. O que muitos talvez não saibam é que a manifestação nasceu há mais de um século com uma função bem diferente: anunciar à população que a Festa de Senhora Sant’Ana, padroeira do município, estava prestes a começar. Realizado sempre no domingo que antecede em 15 dias a festa da padroeira, o Bando Anunciador se consolidou como uma das principais manifestações culturais de Feira de Santana e atravessou diferentes momentos da história da cidade. No próximo domingo (12), o cortejo volta a ocupar o Centro Histórico reunindo grupos organizados por moradores de bairros, famílias, amigos, estudantes e instituições, que mantêm viva uma tradição iniciada ainda no século XIX. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Feira de Santana e região A historiadora e diretora do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Cristiana Oliveira, explicou ao g1 que os primeiros registros da manifestação remontam ao período em que Feira ainda era uma vila. "O Bando Anunciador surgiu no século XIX para anunciar à população que a festa da padroeira estava se aproximando. Era um grupo que percorria as ruas da então vila informando quando começariam os festejos e convidando as pessoas para participar dos ritos religiosos". Confira programação completa da Festa de Senhora Sant’Ana 2026 em Feira de Santana Da elite às ruas: como o Bando se tornou uma festa popular Edição antiga do Bando Anunciador Edvan Barbosa De acordo com a historiadora, naquele período a organização da manifestação estava ligada às famílias que concentravam poder econômico e político na cidade, como fazendeiros, criadores de gado e comerciantes, que também participavam da comissão responsável pela realização da festa religiosa. A tradição, segundo ela, está diretamente relacionada ao processo de povoamento da região e à devoção portuguesa à Senhora Sant’Ana, introduzida no Brasil durante a colonização. Com o passar dos anos, no entanto, o Bando passou por transformações e deixou de ser uma manifestação vinculada apenas às elites locais. A população passou a ocupar esse espaço e a incorporar novas formas de participação, fazendo surgir as fantasias, as marchinhas, os grupos organizados pelos bairros e manifestações marcadas pelo humor, pela irreverência e também por críticas sociais. "O Bando Anunciador traduz muito o povo nas ruas do comércio popular, da feira livre, em torno de uma religiosidade que traduz, não só elementos do catolicismo, elementos mais vinculados à identidade do ser feliz", compartilhou a diretora. Essa transformação também fez com que a celebração incorporasse elementos da religiosidade popular e influências das religiões de matriz africana, características que permanecem presentes na manifestação até hoje. Apesar da forte identificação da população com o cortejo, a tradição deixou de acontecer em 1987. Segundo Cristiana Oliveira, uma orientação da Igreja Católica determinou que práticas consideradas profanas fossem desvinculadas das celebrações religiosas. Além do Bando Anunciador, outras manifestações populares ligadas às festas de padroeiros também deixaram de ser realizadas em Feira de Santana. A retomada aconteceu apenas em 2007, a partir de uma articulação coordenada pelo Cuca com diferentes instituições e representantes da sociedade. Desde então, o cortejo voltou a fazer parte do calendário cultural da cidade e cresceu a cada edição, sendo interrompido apenas durante o período da pandemia de Covid-19. Atualmente, o Cuca atua como articulador da realização da festa, que também envolve órgãos municipais, forças de segurança, instituições, agentes culturais, representantes da comunidade, comerciantes e vendedores ambulantes. Desde então, o cortejo voltou a crescer. Em 2019, último ano antes da pandemia de Covid-19, o público estimado foi de 25 mil pessoas. Em 2023, quando a festa retornou, cerca de 40 mil pessoas participaram da manifestação. Em reconhecimento à importância histórica e cultural do evento, o Bando Anunciador passou a integrar oficialmente o calendário de festas populares de Feira de Santana em 2022, por meio da Lei Municipal nº 4.089. 🗓️ Linha do tempo do Bando Século XIX: surge como cortejo que anunciava a Festa de Senhora Sant’Ana. Décadas seguintes: deixa de ser uma tradição das elites e passa a ser apropriado pela população. 1987: o cortejo é extinto após orientação da Igreja Católica que determinou o fim das manifestações consideradas profanas. 2007: o Cuca/Uefs lidera a retomada da tradição. 2022: o Bando passa a integrar oficialmente o calendário de festas populares de Feira de Santana. 2023: retorna após a pandemia reunindo cerca de 40 mil pessoas. Cortejo começa muito antes de chegar ao Centro Embora o desfile principal aconteça nas ruas do Centro Histórico, a movimentação começa ainda durante a madrugada em diferentes bairros da cidade. É quando os grupos organizados iniciam o deslocamento até o ponto de concentração do cortejo oficial. "Existe um outro cortejo que acontece antes e depois do desfile oficial. Os grupos saem dos bairros muito cedo, alguns ainda de madrugada, e seguem até o Cuca. Depois, retornam juntos. É uma manifestação muito bonita porque mostra a força da organização comunitária". Ainda segundo Cristiana Oliveira, esses grupos são formados de maneira espontânea e reúnem moradores de bairros, familiares, amigos, colegas de trabalho, estudantes e representantes de diferentes segmentos da sociedade. Alguns existem há décadas e mobilizam milhares de pessoas, enquanto outros surgem apenas para uma edição do evento. Devido a essa dinâmica, não existe um número oficial de bandos participantes. Agora no g1 Charangas, fanfarras e o movimento comercial Outro elemento tradicional do cortejo é a música. Durante todo o percurso, os grupos são acompanhados por charangas e fanfarras que executam marchinhas e canções populares. A historiadora explica que, embora os dois nomes sejam frequentemente utilizados como sinônimos, existem diferenças entre eles. "As charangas são diferentes das fanfarras. Elas são menores, formadas principalmente por instrumentos de sopro e percussão, enquanto as fanfarras possuem uma formação maior e um número mais amplo de músicos". Segundo ela, ao longo dos anos esses grupos também incorporaram influências da musicalidade das religiões de matriz africana, reforçando o caráter popular da manifestação e contribuindo para a construção da identidade sonora do Bando Anunciador. Além do aspecto histórico e cultural, a manifestação também movimenta a economia local. Nas semanas que antecedem o cortejo, cresce a procura por fantasias, tecidos, adereços, bijuterias e acessórios utilizados pelos participantes. O evento também impulsiona o comércio ambulante e atrai visitantes de municípios vizinhos durante o mês de julho. Para Cristiana Oliveira, a permanência do Bando Anunciador ao longo das gerações demonstra a força da manifestação como elemento da identidade cultural feirense. A presença de famílias inteiras no cortejo evidencia que a tradição continua sendo transmitida entre diferentes gerações. *Estagiária sob supervisão da editora Ailma Teixeira LEIA MAIS: FOTOS: multidão toma as ruas de Salvador em celebração aos 203 anos da Independência da Bahia Caboclo, cabocla, transferência da capital federal e mais: entenda os símbolos do Dois de Julho na BA Centro de Convenções de Feira de Santana terão shows, cinema, evento geek e stand-up em julho; veja programação Veja mais notícias de Feira de Santana e região. Assista aos vídeos do g1 e TV Subaé 💻
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